Doc Bar – Um marco na Apartação

Doc Bar

Doc Bar

Doc Bar é um nome que hoje é um sinônimo de Apartação. E como ser diferente quando seus descendentes vêem dominando o boi desde meados de 1960?

Pois é, mas nem sempre foi assim a sua história. Seu pedigree cheirava e respirava velocidade! Seu pai, Lightning Bar, foi um grande corredor e vinha de uma linhagem de grandes corredores tais como: Three Bars (PSI) e Della P.

Mas a verdade é que nas pistas de corrida Doc Bar foi um retumbante fracasso. Diz a história que após a primeira corrida seu criador o ofereceu por US$ 1.000,00, apenas para cobrir as despesas com a sua criação… Não surgiu um único candidato à compra.

Então surgiu um nome que começaria a mudar o rumo de sua vida transformando-o numa lenda. Era um treinador chamado Charlie Araujo!

Charlie conhecia Doc Bar desde potrinho e acreditava que ali havia um grande futuro em Halter (Conformação). E havia conseguido a prioridade de treinamento em caso de fracasso nas pistas.

Doc Bar se transformou numa estrela do mundo da Conformação. Neste ponto de sua vida outro acontecimento selaria o futuro:
A família Jensens compra Doc Bar pelo fabuloso valor de US$ 30.000,00.

Os Jensens eram fãs incondicionais da linhagem Poco Bueno, em particular de um de seus filhos: Poco Tivio. E eram os donos de algumas das melhores filhas de Poco Tivo. Éguas como: Susie’s Bay, Teresa Tivio, Jameen Tivo seriam coadjuvantes fundamentais na formação do mito Doc Bar.

Os filhos e filhas de Doc Bar a princípio eram vistos apenas como boas promessas nas pistas de conformação. Para isso valeu muito a impressão de Charlie Araujo que domou Doc Bar: “Ele é um lindo cavalo, mas não consegue nem trocar de mão!

Então um cavalo criado para correr, e que “perderia para uma tartaruga preguiçosa”, transformou-se num grande cavalo de conformação sem habilidade para performance.

Entretanto sua progênie desmentiu o senso comum, a obviedade: seus filhos dominaram o mundo da apartação na década de 70. E seus descendentes dominam este mundo até hoje!

 

Doc Bar foi destes indivíduos que tiveram sua vida discutida nos mínimos detalhes, sempre numa tentativa de se descobrir a origem e motivos de sua grandeza.

Doc Bar nasceu em 1956. Era um filho de Lightning Bar que é Three Bars (PSI) na fabulosa égua Della P. A avó paterna de Doc Bar, Della P era uma filha de Doc Horn (PSI) em égua Old D J.

A mãe de Doc Bar era Dandy Doll que era filha de Texas Dandy que era My Texas Dandy que era Porte Drapeau (PSI). Texas Dandy tinha tido na égua Streak sua mãe. Streak que era Lone Star que era Gold Enamel (PSI). A mãe de Dandy Doll era Bar Maid F que era filha de um obscuro cavalo chamado Bartender II na égua Nelly Bly. Nelly Bly tem em suas veias o sangue de Red Joe Of Arizona que é filho de Joe Reed P-3.

Uma vez que temos seu pedigree dissecado dessa forma o que podemos verificar?

1. Three Bars (PSI), seu avo paterno foi, talvez, o PSI de maior influencia no QM. Foi responsável por diversos filhos e filhas corredores, bem como teve impacto em todas as outras áreas de atuação do QM. Mas não tinha o sangue para passar a habilidade e o “cow sense” dos filhos e filhas de Doc Bar.

2. Lightning Bar, seu pai, foi um AAA AQHA Champion (significando dizer que tinha um IV AAA, e que havia pontuado em Halter). Na verdade, Lightning Bar mostrou habilidade no trabalho tendo vencido algumas competições de fim de semana em provas de laço. Sua progênie aponta mais para velocidade do que para o trabalho, apesar de encontrarmos filhos como:

– Pana Bar, campeão nas pistas de corrida, rédeas, western pleasure e conformação;
– Lightning Rey, AAA AQHA Supreme Champion;
– Cactus Comet, foi outro AQHA Champion com pontos em conformação, laço ao bezerro, western pleasure, apartação, tambor, working cow horse e rédeas.

3. Della P, ficou conhecida como produtora de animais de velocidade.

4. Old D J, era um cavalo conhecido por imprimir velocidade em seus filhos.

5. Doc Horn (PSI), também pode ser considerado como um dos PSI que auxiliaram na formação QM.

Vamos continuar dissecando o pedigree de Doc Bar de onde paramos na parte 1:

6. Dandy Doll, mãe de Doc Bar, era uma égua de boa qualidade e razoável corredora (atingiu nas pistas um IV AA), mas não apresentou qualquer outra habilidade que não fosse “andar para frente”.

7. Texas Dandy, o avo materno de Doc Bar, também foi um razoável corredor, mas que deixou sua marca como reprodutor de animais de velocidade.

8. My Texas Dandy, pai de Texas Dandy e bisavô materno de Doc Bar, tinha velocidade de sobra, mas infelizmente não conseguia fazer curvas. Existem diversas teorias sobre essa incapacidade, mas não é esse nosso objetivo no momento.

Fato é que sua maior contribuição também se deu na reprodução. Teve 03 grandes filhos: Texas Dandy, Colonel Clyde e Clabber. Todos eram corredores, mas Colonel Clyde e Clabber ainda eram bem conceituados como animais de trabalho.

Colonel Clyde foi considerado um dos maiores cavalos de rodeio de seu tempo, participando de inúmeras provas de laço e steer wrestling. Colonel Clyde produziu bons filhos e filhas que fizeram seus nomes nas arenas de rodeio.

Chegamos a Clabber, mais conhecido como o “Cavalo de Ferro”, pois sua rotina diária se constituia de: trabalhos na fazenda, cobertura de éguas, provas de laço, e entre essas atividades todas ainda era um corredor AAA. Clabber também é reconhecido como um tremendo garanhão pela qualidade de sua progênie. Mas seus filhos e filhas estavam mais voltados para as pistas de corrida. No Brasil uma olhada no pedigree de Sir Cashnova nos mostra a presença de Clabber através de sua filha Clabber Tiny.

9. Porte Drapeau (PSI), é também um dos PSI que contribuíram na formação QM.

10. Streak, mãe de Texas Dandy, não oferece nada de extraordinário em sua história que não seja ser filha de Lone Star.

11. Lone Star, ficou conhecido pela capacidade de passar à sua progenie velocidade para as pistas de corrida.

12. Gold Enamel (PSI), pai de Lone Star, também tem sua importância na formação da raça QM.

13. Bar Maid F, a segunda mãe de Doc Bar, tem apenas na produção de Dandy Doll sua marca histórica.

14. Bartender II, um garanhão que tinha um IV AA, e que viveu sua vida numa imensa obscuridade.

15. Nelly Bly, a terceira mãe de Doc Bar, era uma filha de Red Joe Of Arizona que era filho de Joe Reed P-3 que era Joe Blair (PSI). Mas além disso e de sua velocidade pode-se dizer muito pouco.

16. Red Joe Of Arizona, um dos melhores filhos de Joe Reed P-3, teve uma destacada progênie nas pistas de corrida e performance.

17. Joe Reed P-3, é um dos cavalos fundadores da AQHA, e sua linhagem é extremamente respeitada pois produziu garanhões que estabeleceram, por sua vez, a perpetuação de seu nome. Animais como: Joe Reed II (pai de Leo, Bull’s Eye, Firebrand Reed e Joak), Catechu, Joe Sunday e Reed McCue.

Após esta leitura chegamos a que conclusão?

Provavelmente a mesma de todos que avaliaram o pedigree de Doc Bar, ou seja, tinha um sangue repleto de velocidade e …ligeiramente salpicado com uma habilidade longíqua para performance.

Mas a habilidade estava lá, latente… esperando para aparecer! A verdade é que ninguém poderia imaginar que ela surgiria. Doc Bar definitivamente não seria uma aposta para as arenas de performance.

Então, será que a habilidade dos Doc Bar não vem dele e sim das éguas?

A experiência e a observação de seus 485 filhos e filhas mostram que não. A habilidade vinha de Doc Bar efetivamente. Doc Bar foi cruzado com todo tipo de égua, inclusive com femeas PSI… e o resultado, ainda assim, foi de animais de performance com bois.

E no final estaremos lançando uma pomica: Com que convicção estamos descartando animais em função de crenças arraigadas e não na efetiva aferição?

A progênie de Doc Bar acaba com qualquer dúvida sobre seu legado para a indústria da Apartação.

Os experts da área indicam que Doc Bar introduziu algumas mudanças fundamentais nos animais de apartação, foram elas:

1. A primeira mudança pode ser considerada estética, ou seja, os filhos e filhas de Doc Bar tinham uma aparência mais refinada.

2. A segunda, que revolucionou a forma de apartar um boi, foi a introdução da “sweeping motion” (um movimento fluído, leve e solto da frente do animal ao acompanhar as mudanças de direção do boi). Esta movimentação dos Doc Bar alterou substancialmente a forma como se apartava.

Excepcionais cavalos de apartação anteriores a Doc Bar eram conhecidos pela sua velocidade em cortar o caminho do boi, pela sua capacidade de recuperar terreno após uma virada do boi… Um exemplo da forma de apartar estava no próprio estilo dos cowboys que, até o final da década de 1940, se recusavam a segurar o pito da sela.

Pine Johnson, lendário treinador e “horseman”, que teve seu nome ligado a Poco Bueno, conta que descobriu o motivo da existência do pito da sela após ser retirado de sua sela por uma virada violentíssima de Poco Bueno.

A virada de Poco Bueno foi tão violenta que para o público e outros competidores Pine Johnson optara por saltar do cavalo.

Outro magnífico animal que também era conhecido pela virulência de sua movimentação era Mr Gun Smoke! O artista plástico Lex Graham constumava brincar com o treinador que era impossível fazer qualquer obra com Gun Smoke, simplesmente porque “durante a apartação o treinador ficava mais da metade do tempo tentando voltar para a sela!”

Outro monstro sagrado da Apartação chamava-se Buster Welch. Este treinador costumava referir se a forma de trabalhar de Mr San Peppy como sendo de uma “violência controlada”.

Mas uma coisa tornou-se incontestável :o sangue Doc Bar tornou-se a essência do esporte de apartação e influenciou dezenas de outras categorias. O impacto de seu sangue é tão abrangente, que quase 50 anos depois seus descendentes continuam arrebatando as pistas.

 

*** Este texto é uma homenagem ao legado do amigo “Vicente Celso Evangelista Filho”, um dos maiores conhecedores de linhagens QM que o Brasil já conheceu.

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